Vivendo de Migalhas
Acompanhamos a rotina da família Leite. Assim que terminam o café, eles se preparam para mais um dia. As meninas: Raíssa de treze anos, Lorrana de oito, e Evelyn de sete vão para a escola juntas. Logo em seguida, Cleófas, o filho mais velho, também vai estudar. Suor, cansaço, buracos no caminho. Adecarlos anda quatro quilômetros até a escola todos os dias. O objetivo é economizar o dinheiro da passagem de ônibus. O sol nasceu e o chefe da família está de pé. Adecarlos sai bem cedo para o trabalho. São vinte minutos de caminhada até o ponto de ônibus. Na cidade vizinha de Taboão da Serra, na grande São Paulo, Adecarlos ganha o seu pão de cada dia. Lá ele faz o serviço de faxina. Ele varre o chão, as salas, limpa as janelas e recolhe o lixo. Uma jornada de oito horas em troca de um salário mínimo. Enquanto isso, a mulher de Adecarlos fica em casa.
Para ajudar na renda familiar, Ivanilda faz alguns bicos. Ela era empregada doméstica. Há 2 anos descobriu que sofre de artrose e não consegue mais trabalhar por causa das fortes dores no corpo. A tarde, ela tem mais responsabilidades. Todo o esforço é para complementar o salário mínimo do marido. Ivanilda recebe uma sacola com centenas de tampinhas recicláveis. Com a ajuda de Cleófas e, às vezes, do sogro, eles precisam lacrar o objeto.
Estamos no Parque Edu Chaves, na zona norte São Paulo. Lá encontramos dezenas de carroceiros, mas um especialmente nos chama atenção. Perguntamos se podemos acompanhá-lo em um dia de trabalho. Ele aceita e marcamos um encontro. No dia seguinte, nosso produtor se prepara para encarar as ruas como carroceiro. Cinco e meia da manhã. Chegamos à casa de Everton, o carroceiro de 17 anos que não estuda e precisa ajudar a sustentar a família. Everton mora em um apartamento simples com a mãe e as duas irmãs. O pai morreu há 5 anos e desde então, o jovem procura nas ruas entulho para vender.
Em uma hora de trabalho, o ponto mais crítico do dia. A frequência cardíaca do nosso produtor, que começa com 120 batimentos por minuto, agora sobe para 176. Bate o cansaço e aos poucos o carrinho de Everton vai enchendo. Nosso produtor sente fortes dores nas costas. Dez da manhã e a dupla percorre 22 ruas e são dados mais de 6 mil passos. É quando o estômago pede socorro. Com fome, Everton bate na casa de um amigo que costuma servir um lache para o jovem. Meio dia, sol a pino. A temperatura aumenta, castiga. Nosso produtor está prestes a desistir. O cansaço e as dores musculares falam mais alto. Uma da tarde e eles atingem a marca dos dez mil passos. Doze quilômetros percorridos até que nosso produtor pede água, desiste e solicita para que parem. Everton pesa o material que arrecadou. São 25 quilos e o jovem volta para casa com 15 reais no bolso. Por mês, ele consegue tirar em média 300 reais. Agora durante a tarde chega o momento de descanso e mais prazeroso para o jovem: jogar video game. Everton tem dificuldades para instalar o jogo. O video game está velho, os fios descascados. É assim que ele encontra um jeito de brincar e lembrar que ainda é apenas um garoto, um menino de 17 anos.
Você lembra da família "leite"? Que o faxineiro Adecarlos, a esposa e os quatro filhos não vivem, mas sobrevivem com um salário mínimo? Hoje é um dia especial para eles, o dia das compras. O momento que eles vão conseguir preencher os espaços vazios da dispensa. As crianças fazem pedidos. Sem condições de comprar um carro, Adecarlos, Ivanilda e a filha Raíssa se deslocam até o supermercado à pé. Na hora de escolher o feijão, Ivanilda desiste de levar. O preço está alto demais. A família escolhe os produtos pelo menor preço. Alguns ítens da lista ficam de lado e os três contam cada centavo.
É hora da família leite fazer as contas do mês. Com a ajuda da mulher e da filha Raíssa, Adecarlos soma as despesas do mês. Depois de somar as dívidas, que ainda não foram pagas, Adecarlos descobre que vai faltar dinheiro para sustentar a família até o final do mês.
O desemprego leva famílias inteiras a se alimentar do que vai para o lixo. Nas feiras livres, além dos vendedores e compradores, encontramos pessoas como dona Terezinha. Fome e a necessidade de encontrar no chão a comida que vai alimentar ela e os netos. Dona Terezinha tem tuberculose há 5 anos. Por ser uma doença grave e em determinada fase, contagiosa, ela não consegue arrumar um emprego fixo de doméstica. O filho está preso e dona Terezinha sustenta sozinha os três netos.
Enquanto isso, nesta outra feira da zona oeste de São Paulo, conhecemos Renato e Rosângela enquanto reviravam o lixo. Eles vasculham o chão à procura do que vai se transformar em uma refeição. Renato e Rosângela estão desempregados. Renato era auxiliar de obras, mas depois de um acidente, ele ficou com um lado do corpo paralisado. Agora, tenta receber aposentadoria por invalidez, mas ainda não conseguiu nada. Para não ficar parado, Renato pega recicláveis na rua e faz bicos de flanelinha.
Até poucas semanas, os dois dormiam na rua. Agora, eles moram de favor na casa de um primo. Dona Terezinha sai da feira com o carrinho lotado. Ela carrega como pode os alimentos que consegue pegar do chão.São quatro quilômetros da feira até em casa. No caminho, dona Terezinha passa em frente a uma de suas maiores mágoas, o centro de detenção provisória de Pinheiros, local onde seu filho está preso. Dona Terezinha mora na favela, ruas de terra batida, casas improvisadas. É ali que ela cria sozinha os três netos. Assim que chega em casa, dona terezinha lava os alimentos e já prepara um lachinho para as crianças. A casa onde mora é muito simples: 2 dormitórios, sala, cozinha, tudo bem apertado. Os cômodos são divididos com madeiras improvisadas e lençóis. No teto, buracos que a água invade quando chove.
A equipe do Conexão Repórter está na região metropolitana de Belém. Na periferia da segunda maior cidade do estado do Pará, encontramos ruas sem asfalto. População sem saneamento básico, sem água encanada. carroças servem como meio de transporte. Nessa comunidade moram oito mil famílias. Setenta por cento dos moradores sobrevivem do lixão da cidade. Neste grande depósito à ceu aberto, flagramos crianças trabalhando no local. Este menino mal consegue carregar o pneu. O garoto de onze anos conta que passa o dia inteiro aqui e revela que a sua vontade é estar na sala de aula e quando crescer, sonha em ser um policial. Todos aguardam ansiosos a chegada do caminhão de lixo. Mal termina de descarregar, começa a caça. Animais como bois, vacas e urubus dividem espaço com os catadores. Um dos homens que frequentam o local perdeu um dedo e parte de outros dois da mão direita. O acidente aconteceu no lixão do Aurá. Um objeto de plástico prendeu em seu dedo e no caminhão e, então, o motorista arrancou e estourou seus dedos.
Homens, mulheres, trabalhadores vivendo de migalhas. Fazem de tudo para sobreviver e são com com certeza muito mais dignos do que aqueles que costumam humilhá-los.
Disponivel em:http://www.sbt.com.br/conexaoreporter/reportagens/reportagem.asp?id=42&t=Vivendo+de+Migalhas, acesso em 26/11/2010
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